Vamos então analisar o que está aqui em causa - e não é preciso centrarmo-nos em muitos outros versos da canção. Só no refrão temos muito que analisar criteriosamente. Analisemos os primeiros versos:
Como o macaco gosta de banana,
Eu gosto de ti
Uma frase apenas, e no entanto já algo de tão estranho se passa aqui. Exactamente, como é que o macaco gosta de banana? O macaco gosta de banana no sentido de gostar de a ingerir, de se alimentar com essa fruta. O macaco não sente amor pela banana. O macaco não quer acasalar com a banana. Os resultados disso, em termos de descendência, deveriam ser desastrosos. Teríamos seres estranhos com casca por fora e pelo por dentro chamados… banacos. Ou… macanas. Arrepiante.
Ora, partindo do princípio que esta é uma canção de amor, que sentido fará, afinal, dizer «como o macaco gosta de banana, eu gosto de ti»? Isto faria sentido se, na verdade, o interprete quisesse descascar a mulher amada e comê-la, - mesmo no sentido canibal - começando pela cabeça e indo por aí a baixo. Ou então às rodelas, com queijo, uma vez que há quem goste de comer banana com queijo. Portanto, os versos «Como o macaco gosta de banana eu gosto de ti» parecem-me fazer pouco sentido.
Imediatamente a seguir surgem os versos:
Escondi um cacho debaixo da cama
E comi, comi
Ora isto é grave. Portanto, já percebemos, pelo primeiro verso, que o intérprete se refere à mulher amada como sendo a bana e ele o macaco. Certo? Creio que estamos todos de acordo neste ponto. A partir do momento em que ele diz «escondi um cacho debaixo de cama e comi, comi», o que é que está a dizer? Se uma mulher é uma banana, um cacho são várias mulheres. Várias mulheres que este homem escondeu debaixo da cama e foi comendo. Ora uma vez que já tínhamos chegado à conclusão de que esta letra só faz sentido se estivermos a falar de canibalismo, temos que, no fundo, esta canção é sobre um assassino em série. Que foi raptando mulheres, que as foi mantendo debaixo da cama e que as foi comendo.
Vamos em frente, até aos versos seguintes, que dizem:
Minha macaca gira e bacana,
O teu focinho é que não me engana
Mau. Então afinal, ela é a banana ou é uma macaca? Assim não vamos a lado nenhum. Mas, vamos supor que esta é mesmo uma canção romântica: é impressão minha ou chamar «macaca» à mulher de quem se gosta não é propriamente a coisa mais romântica do mundo? Aqui na música, a coisa até parece que funciona, porque o tom é muito animado. Mas vamos por isto em prática na vida real.
Vamos imaginar, miúdas, que vocês estão com o vosso namorado, ou marido, ou amante, e que ele vos sussurra ao ouvido «Aah, macaca…» Com franqueza. Onde é que um homem pensa chegar ao usar, numa declaração de amor, a palavra «macaca»? Pior ainda se, à palavra «macaca», ele juntar, como acontece nesta canção, a palavra «focinho». Isto é coisa que se diga à mulher amada? «Oh, macaca, que belo focinho.» Não é muito romântico.
Vamos em frente. Os versos que se segue dizem:
Pois se a macaca gosta de banana
Tu gostas de mim
Quer dizer, aqui a coisa entrou o descontrolo total e completo. Portanto, em definitivo, ela passou a ser a macaca e ele a banana. Por outro lado, entramos aqui no reino do deboche, em que a palavra banana, uma vez que surge agora associada a um homem, parece-me que ganha todo um novo e malicioso significado. E isto choca-me. Choca-me por isto: vamos imaginar um concerto de José Cid. Num momento, temo-lo a cantar, suave e meigo, «amar como Jesus amou, sorrir como Jesus sorriu»; no outro, põe-se a falar de macacas que gostam de bananas?
Finalmente, ele termina o refrão cantando o seguinte:
Como o macaco gosta de banana
Eu gosto de tiiiiiiiiiiiiii
Mau. Assim ninguém se entende. Afinal de contas, em que ficamos? Quem faz de macaco? Quem faz de banana? Valerá a pena a trabalheira que dá levar este fetiche para a frente?
Sinceramente, parece-me que não. No que toca a esta visão dos macacos e das bananas, José Cid afigura-se demasiado avançado e intelectual para o meu gosto.